Fato ou Ficção? O que é real e o que é inventado em um processo de escrita

A pergunta que todo autor mais ouve depois de um lançamento — logo depois de “quando sai o próximo?” — e a clássica: “Isso aconteceu de verdade?”.

Como autor, confesso que essa é uma faca de dois gumes. Por um lado, é um elogio imenso saber que a narrativa pareceu tão viva que você suspeita que eu realmente vivi aquilo. Por outro lado, às vezes a resposta é um “quase” bem misterioso. Hoje, decidi abrir as cortinas e mostrar um pouco do processo de escrita para explicar como a realidade e a imaginação dançam um tango frenético antes de uma história chegar à sua estante.

Prepare-se: a verdade pode ser mais estranha (ou mais comum) do que você imagina.


O “Efeito Frankenstein”: Criando pessoas do zero (ou quase isso)

No processo criativo, personagens raramente nascem do nada. Eles são como o monstro de Frankenstein: pegamos o senso de humor de um amigo, o jeito de mexer no cabelo de uma pessoa que vimos no metrô e aquele hábito irritante que nós mesmos temos, e costuramos tudo em um novo ser.

Claro que existem aqueles personagens que surgem, sim, “do nada”, baseados em algo que amamos ou odiamos nas pessoas. Por exemplo, em Tudo Que Eu Ainda Não Era, a protagonista Chloé carrega dores que são universais. Eu vivi exatamente o que ela viveu? Não necessariamente. Mas eu já senti o peso de uma reconstrução emocional? Com certeza. O segredo da escrita de ficção é usar uma emoção real para alimentar uma situação inventada.

Já a personagem secundária, Viola, é o tipo de pessoa que me cativa de imediato: espontânea e inocente. Ela nasceu desse meu fascínio por personalidades que trazem leveza ao caos.

Capa do livro Tudo Que Eu Ainda Não Era, de M. V. Miguel

Tudo Que Eu Ainda Não Era


Cenários: Do meu bairro para o mundo

Muita gente se pergunta se os lugares descritos nos livros existem. Às vezes, eu descrevo a sensação de uma tarde em Belo Horizonte ou a luz específica (que eu imagino) em um café na França.

O truque aqui é a inspiração literária geográfica. Eu pego um lugar que conheço, um prédio que só vi de fora, mudo o nome de uma rua, acrescento um detalhe e pronto: o cenário ganha vida pelo ponto de vista do narrador. A realidade é o esqueleto; a ficção é a roupa elegante que o veste.


Por que a “Mentira” é tão importante?

Você pode se perguntar: “Se você já viveu coisas interessantes, por que não escrever uma biografia?”. A resposta simples: a ficção nos permite ser mais honestos.

A resposta pragmática: muitas das coisas que eu (e acredito que muitos autores) vivi poderiam não ser tão interessantes para as outras pessoas quanto foram para mim. Através da escrita criativa, podemos explorar caminhos que não tivemos coragem ou oportunidade de seguir na vida real. Posso fazer um personagem dizer o que eu engoli, ou dar a ele o final feliz (ou trágico) que a realidade esqueceu de entregar. No fundo, todo desenvolvimento de personagens é um exercício de “e se?”.


O que vem por aí: Satirizando a realidade

Atualmente, estou mergulhado em um novo projeto — aquele que apelidei carinhosamente de O Viajante do Tempo. Aqui, o desafio é diferente. Estou usando o humor sarcástico e até um pouco absurdo para falar de coisas muito reais do nosso cotidiano. É a prova de que, às vezes, a melhor maneira de falar a verdade é através de uma grande e divertida mentira.

No fim das contas, a autenticidade de um livro não está em saber se o autor realmente tomou aquele café específico naquela terça-feira, mas se, ao ler aquela cena, você sentiu o calor da xícara e o peso da solidão (ou da companhia) junto com o personagem.


A pergunta de ouro: Se você fosse escrever um livro hoje, qual segredo ou hábito seu você “emprestaria” para o seu protagonista? Me conta nos comentários, eu adoro caçar esses pequenos detalhes da vida real!

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